terça-feira, 18 de novembro de 2014

Tipo assim....

Não me lembro bem se era junho ou janeiro. Era calor, flores caídas das árvores, perfume de lírio no quintal do apartamento, era você do outro lado da cama lindo que só, como todos os outros dias que dividimos juntos. Tinha açúcar no café em cima do fogão, o iogurte com sucrilhos que você tanto gosta, e o uniforme do futebol de sábado já com cheiro de amaciante de mãe dentro da sua mochila. Uma rotina que não cansa, não amansa, que um dia já teve o gosto doce e sereno da reciprocidade. Naquele dia que não me lembro bem, eu entendi toda a dor de viver uma parceria em descaminho. Entre sorrisos e broas de café da manhã, como quem já não vê sentido no sorvete de chocolate estando de dieta, eu desisti de você.
Não foi nada aleatório, impensado, muito menos desavisado. Pelo contrário, o grito aos navegantes ecoava quase que diariamente da proa do navio, alertando para os riscos de tempestades, turbulências, e homens ao mar. Enquanto eu me entregava, me dedicava, enquanto eu colocava um significado na palavra amor que deixava de batom vermelho no espelho do banheiro todos os dias, que era para você nunca se esquecer de onde estava indo e para onde estava voltando, você individualizava a vida em conjunto. Não notava os pequenos requintes de sutileza que agregavam cuidado ao nosso cotidiano e ignorava seco meu desejo de amparo, que só desejava acordar todos os dias envolto naquele abraço.
Aprendi ioga, francês, cálculos diferenciais, e até a calibrar o pneu do carro sozinha em dias de chuva. Reformulei o conceito temporal de saudade, e ofereci um milhão de oportunidades para colocar a cabeça no lugar e finalmente decidir em qual parte da sua calmaria se encaixava a minha tormenta. Esperei. Escolhi desviar a atenção do problema que era para ver se a vida me presentava com alguma resposta pré-formulada no final do nosso livro. Esperei tanto, que encontrei uma pedra no meio do caminho e ela virou flor, música, curso de inglês, dança, viagem, passeio com as amigas, borboleta.


Quando a gente começa a entender que precisa fazer parte do sonho do outro, assim como ele faz parte dos nossos, compreende que amor é um ato de fé. Uma prece às escuras, sem saber direito se existe alguém do outro lado contabilizando toda aquela devoção. Amor é um caminho, que como toda travessia a dois, precisa ser olhado em conjunto que é para se ter certeza de que os anseios se encontram e que nenhuma individualidade permanece prejudicada.
No dia que eu desisti de você não choveu, não tive problemas profissionais, não me machuquei na academia, tão pouco estava de TPM. Era junho ou janeiro, não me lembro bem. Mas de uma coisa estou certa, tinha um baita sol. Do lado de fora e esse aqui, que incandesce o amor próprio dentro de mim todos os dias. Saímos juntos, cada um para o seu espaço, seu abraço, sua rotina. E voltaríamos à mesma hora de sempre, com as mãos habitualmente dadas e o sorriso da última brincadeira tola ainda desfeito, esperando que um ou outro desse um passo adiante da sua zona de conforto. Repeti como um mantra: parcerias reais exigem entrega e flexibilidade. Olhou-me como quem não entendia o que via. Mal sabia ele que eu já havia desistido de nós. Eu era a própria desistência buscando abrigo dentro da palavra amor.

Danielle Daian

Nenhum comentário:

Postar um comentário